domingo, 29 de maio de 2016

Boas Histórias Estragadas por Grandes Autores



Se o nome de Shakespeare divide os especialistas, a excelência das suas obras não deixa
de os dividir. Para diminuir a sua genialidade argumenta-se que as histórias já existiam; Shakespeare apenas as teria coligido. De facto, a tragédia de Romeu e Julieta é baseada num conto popular italiano com uma versão inglesa em verso, de Arthur Brooke (The Tragical History of Romeo and Juliet, 1562), King Lear é baseado numa história popular cuja versão escrita data de 1135 (History of the Kings of Britain, por Geoffrey Monmouth), Macbeth nasce de Chronicle of Scotland (Raphael Holinshed, 1587), O Mercador de Veneza, de um conto italiano (Il Pecorone, Giovanni Fiorentino, 1378) e de The Gesta Romanorum, uma colecção de histórias medievais (Richard Robinson, 1577).


Midsummer Night’s Dream é original mas manifesta influência de As Vidas dos Nobres Gregos, de Plutarco, de O Conto do Rei, de Geoffrey Chaucer e de Medeia e Hipólito, de Séneca. De resto, quase todos os escritores e filósofos modernos e contemporâneos foram influenciados pelos clássicos ou por movimentos literários e artísticos, que mais não foram do que revivalismos dos antigos gregos. Nenhum escritor, nenhum filósofo, pode afirmar honestamente que tudo o que produz veio exclusivamente de si. A filosofia alemã, em particular, é um ressurgimento grego.


O mérito de Shakespeare é reunir numa única história várias fontes, como peças de lego, para descrever a condição humana, o homem como ser político e espiritual, e, last but not least, encontrar o fio de prata da moral. Temas como o amor, casamento, relações familiares, papel dos sexos, raça (como em Otelo), classe social, humor e traição, doença, vingança, mal, crime e morte, mantêm as suas peças vivas na actualidade e com um carácter perene. O seu mérito é escrever para as massas, conferir às suas peças um carácter cinematográfico, ampliar as personagens secundárias, expor as limitações das convenções humanas, explorar os perigos e contradições das aventuras morais. Sobretudo apontar que as nossas escolhas têm consequências. Macbeth ilustra como a ambição desmedida é uma degenerescência do homem e como o arrasta de crime em crime para o poço da decadência: 

“A peça Macbeth é, num sentido inequívoco, a tragédia cristã; para ser contraposta à tragédia pagã de Édipo. O ponto fundamental em Édipo é que ele não sabe o que está a fazer; o ponto fundamental em Macbeth é que ele sabe muito bem o que está a fazer. Não se trata de uma tragédia do destino, mas de uma tragédia do livre arbítrio. Ele é tentado pelo diabo, mas não é conduzido pelo destino.” (Chesterton, On a Humiliating Heresy, 1929 e Come to Think of It, 1930).



Em O Mercador de Veneza contrasta-se a velha moral do “olho por olho, dente por dente”, ressurgida com a Reforma, com a moral neotestamentária da graça e da misericórdia. Aborda-se a questão da usura, repetidamente condenada pela Igreja Católica, mas confere-se a um judeu o direito de se defender e expor os seus argumentos.



Nas obras de Shakespeare, encontram-se exposições da filosofia egoísta ou do existencialismo, como se fossem ressurgimentos tardios de Plutarco e Epicuro ou precoces de Nietzsche ou de Sartre, com uma particularidade subtil: num louco como Ricardo III, "A consciência não passa de uma palavra que os cobardes usam, concebida a princípio para amedrontar os fortes. Que os nossos fortes braços sejam a nossa consciência, as espadas a nossa lei!", ou num Hamlet que se faz passar por louco, “Nada é mau ou bom (em si mesmo), excepto na cabeça do homem.” Encontra-se a solidão do antropocentrismo, a misoginia, a misantropia e todas as suas contradições existencialistas, no diálogo de Hamlet com Rosencrantz, lembrando Camus: 

“Perdi toda a alegria, (…), a terra parece-me um promontório estéril (…). Que peça de arte é o homem! Tão nobre como ser racional! Como toca o infinito nas suas faculdades! Como se expressa e quanto admirável é quando em forma e movimento! Em acção é como um anjo! Na apreensão como um deus! A beleza do mundo, o mais excelso dos animais! E, no entanto, o que é para mim esta quintessência do pó? O homem aborrece-me e a mulher também.” 

Em Otelo, a questão da raça é mais metafórica do que literal. Nele se encontra o problema do outro, daquele que não é próprio, do estranho, do estrangeiro, com todo o seu cortejo de ignorância, desconfiança e rejeição. Ninguém retrata melhor a questão da fidelidade da esposa e da humilhação perante um marido ciumento ou a questão da inveja e da maledicência entre famílias ou em ambientes competitivos.


Não se nega que Shakespeare tenha recebido influências; antes se afirma que tal é próprio da vida em sociedade. Mas apontar as influências para diminuir Shakespeare, é ignorar que Shakespeare descreveu um todo significante: a condição humana, a injustiça e os jogos de poder, a razão divina e a razão de Estado, o problema da moral e da finalidade do mundo e do homem, a ideologia e a religião, a verdade e a beleza, questões prementes na Inglaterra isabelina como o são no Ocidente moderno:


“A verdade pode parecer, mas não ser

A beleza pode ufanar-se, mas só parecer

A verdade e a beleza, sepultadas ser.”, (Shakespeare, A Fénix e a Tartaruga).





Não foi só a qualidade literária que assegurou a Shakespeare o segundo lugar no pódio dos mais lidos em todo o mundo, foi o conteúdo gnosiológico e a ligação teatral ao homem comum. Chesterton num ensaio admirável aponta precisamente este detalhe: há autores que escrevem bem, mas só escrevem loucura e um rol de pressupostos estúpidos, contradições e mensagens doentias, paranóicas ou deprimentes. Ocorrem-me excelentes escritores neste rol. Saltimbancos da escrita que metem dó; cuja vida e cuja morte foram horrendas. Infelizmente a “arte pela arte” fez o seu curso e muitas pessoas louvam escritores pelo deslumbre da sua escrita sem se deterem no conteúdo. Há mulheres que exaltam escritores ou filósofos que não conferem à mulher a dignidade de um ser humano. Em Shakespeare a mulher é aquilo que ela é, foi e será, para um homem são: o mistério, a superlativa proposta estética, a graciosidade e o pragmatismo, a sensatez e a complementaridade.





O referido ensaio de Chesterton aponta ainda mais um detalhe: há autores que escrevem admiravelmente, mas estragam, porque desvirtuam, as histórias originais. Chesterton dá o exemplo de três grandes autores: Milton, Göthe e Wagner. E, comparando com Shakespeare, ele afirma que Shakespeare melhorou todas as histórias que reinventou. Essencialmente porque a filosofia que transparece das obras de Shakespeare é uma filosofia cristã, enquanto que a filosofia desses outros autores é um deísmo, hegelismo ou relativismo. Em Shakespeare existe sempre uma régua e ela é, sem sombra de dúvida, neotestamentária. “Shakespeare encontra-se possuído por um sentimento que é a primeira e mais importante ideia do catolicismo: a verdade existe, gostemos dela ou não; somos nós que temos que nos adaptar à verdade.” (Chesterton, Shakespeare and Milton, ILN 8 de Junho de 1907).

"Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio.(...) Nada vem do nada. (...) O príncipe das trevas é um cavalheiro. (...) Diz o que sentes e não o que deves dizer. (...) Lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor e sofrer novamente."  São frases de King Lear que ilustram uma filosofia perene.


Pode interpretar-se Shakespeare de acordo com o todo integrado e significante presente em todas as suas obras, na sua religião, na sua moral; ou pode torcer-se Shakespeare de acordo com a nossa própria heresia. Como diz Joseph Pearce, existem dois tipos de pessoas: as que alteram os livros e as que deixam que os livros as alterem a elas.


“É suposto que por Shakespeare ter tomado a lenda de King Lear, ou Goethe a de Fausto ou Wagner a de Tannhäuser, eles as melhoraram e que as lendas lhes devem estar gratas. Eu desconfio sempre do individualismo estreito do artista e antes confio no comunismo natural do artesão. Eu creio que existe algo mais elevado que o homem de génio – é o génio do homem. Deixo Shakespeare fora deste argumento, porque eu creio que ele se especializou em fazer grandes obras a partir de novelas medíocres.”





“Milton, num sentido, estragou o Paraíso do mesmo modo que a Serpente. Ele fez um poema magnífico e, contudo, falhou o ponto poético. Ele faz Adão ingerir o fruto proibido, não tentado, mas para ser solidário com Eva, partilhando a sua queda. E assim, transforma a maldade humana numa forma de cavalheirismo. Ora, a nossa maldade não surge de se ser magnânimo. Se somos libertinos e patifes, como decerto somos, isso não se originou do facto de que o nosso primeiro antepassado fosse um marido e um cavalheiro. A história bíblica é bastante mais subtil. Lá se encontra a descrição do mal como aquela insolência irracional que não aceita mesmo as condições mais básicas; aquela anarquia antiartística que objecta a qualquer limite, pelo facto de ser um limite. 

Nunca é dito que o fruto fosse muito saboroso ou especialmente belo; ele foi cobiçado por ser proibido. No Éden existia um máximo de liberdade com um mínimo de veto; mas algum veto é essencial até para gozar de liberdade. A coisa mais importante de um prado é o seu limite. Sem o limite o prado torna-se uma lixeira, como aconteceu com o Éden quando se perdeu o seu limite. A ideia bíblica de que todos os pecados e sofrimentos se originam numa certa febre de orgulho, que não poderá disfrutar a menos que o controle, é uma verdade mais profunda e penetrante do que a sugestão de Milton de que um cavalheiro se viu enredado no seu cavalheirismo por uma senhora. O Genesis, com sensatez, mostra um Adão que perdeu o seu cavalheirismo após a Queda de forma clara e surpreendente.”






“O mesmo tipo de degenerescência se observa no caso de Goethe e da lenda Fausto. Não me refiro, evidentemente, à poesia em particular, que está acima de qualquer crítica. Refiro-me ao esboço do Fausto de Goethe – ou melhor, ao esboço contido na primeira parte, uma vez que a segunda parte não possui qualquer esboço. Na versão medieval, Fausto é amaldiçoado por cometer um grande pecado: jurar lealdade ao mal eterno de forma a que pudesse possuir Helena de Tróia, a sensualidade carnal. O velho Fausto é condenado por cometer um pecado terrível; o novo Fausto salva-se por cometer um pequeno pecado. O Fausto de Goethe não é encantado e desgraçado por um excepcional atributo de uma dama singular. 

O Fausto de Göthe, mal chega a adulto logo se torna um patife. Enrola-se logo numa intriga – não digo confusão, porque (como quase sempre em casos similares) só a mulher é que é enrolada. Seguramente que existe aqui algo do lado mais sombrio da Alemanha, algo do sentimentalismo pueril, nesta confusão de sedução e salvação! O homem arruína a mulher; por consequência a mulher salva o homem; e aqui reside a moral die ewige Weiblichkeit (o eterno feminino). Alguém que não ele arcou com o sofrimento; e no final a sua crueldade é o mesmo que a sua bondade. Pessoalmente, prefiro o antigo conto com marionetes, em que Fausto é dilacerado por diabos negros e precipitado no inferno. Parece-me um final menos deprimente.”






“O mesmo princípio, se vejo bem, impregna a versão de Wagner de Tannhäuser – ou melhor, a sua perversão de Tannhäuser. Esta grande lenda da Idade Média, contada correctamente, é uma das coisas mais tremendas na história humana ou nas fábulas. Tannhäuser, um grande cavaleiro, cometeu o pecado terrível que o tornou proscrito da comunidade dos pecadores. Ele tornou-se por pacto, amante da própria Vénus, a encarnação da sensualidade pagã. Saindo das cavernas tenebrosas para o sol, extraviou-se para Roma e perguntou ao Papa se pelo arrependimento se podia salvar. O Papa respondeu-lhe que existem limites para tudo. Um homem que se separou tanto da moral cristã pode tanto arrepender-se como o bordão do Papa desenvolver de novo folhas verdes. Tannhäuser afastou-se em desespero e mergulhou de novo nas cavernas da morte eterna; só que o Papa olhou para o seu bordão uma bela manhã e viu que nele rebentavam de novo folhas. Para mim, este final é uma terrível colisão de agnosticismo com catolicismo. Creio que Wagner fez Tannhäuser regressar arrependido uma segunda vez. Se isto não é estragar uma história, não imagino o que seja tal coisa.”





“Finalmente, falo da peça Salomé de Oscar Wilde. Mais do que qualificar a sua moral, parece-me ser profundamente antiartística. Ora, o ponto vital da história bíblica reside na inocência e indiferença da jovem dançarina. Um déspota planeava dar umas indulgências; uma rainha dissimulada planeava uma vingança cruel. A dançarina (sempre a imaginei como uma criança) era filha da rainha vingativa e dançou perante o déspota. Num relaxamento túrgido ele oferece à menina qualquer presente que ela escolha. Encantada com uma tal benevolência de contos de fadas, ela corre à mãe a perguntar que presente escolher; a rainha cruel viu a sua oportunidade e pediu a morte do seu inimigo. Em vez deste conto poderoso e irónico de usar uma borboleta como vespa, a Salomé de Wilde é portadora da ideia doentia e vulgar de se encontrar apaixonada pelo profeta. Não sei se isto é má moralidade, uma vez que a sua moralidade é o seu efeito na humanidade. Mas eu sei que é má arte, porque a sua arte é o seu efeito em mim.”







António Campos